Nós em Londres


Maio 16, 2008, 8:45 am
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era bom que eu pudesse falar do que fiz ontem sem grandes explicações. Mas imagino que aminas cíclicas complexadas com cobalto e fosfonatos não sejam a especialidade de muita gente, e era chato e isso estar a falar chinês. Eu própria às vezes ainda tenho dificuldade em compreender o que faço. Melhor: tenho dificuldade de perceber o que é que ando para aqui a fazer.

Hoje é tarde. Já devia estar no laboratório há pelo menos uma hora e ainda aqui estou. A olhar para os corn-flakes semi-desmaiados em yogurte, com medo de ter frio se for lá para fora. Está-se tão bem em casa hoje.

Ontem foi vitória. Fechei o laboratório depois das dez, mas ganhei. Estava o universo inteiro armado de pipetas partidas, falta de pressão de azoto na linha, um potenciómetro esquizpfrénico a apitar antes do valor estar estável, mas eu fui mais teimosa. E agora, no forno durante quatro dias, vão estar os nanomateriais que me tiram o sono há mais de um ano. Pela primeira vez no universo. Nunca ninguém fez isto no universo todinho inteiro até ao bocadinho de pó de estrela mais varrido debaixo de um qualquer tapete cósmico – foram estas mãozinhas (trémulas, é verdade) que pariram os primeiros nanomateriais com esta constituição específica.

Isto em si não é descoberta nenhuma – não estou a inovar muito (ainda). É primeiro preciso que os ditos tenham propriedades decentes, senão mais vale usar os folares da minha avó como catalisadores. Mas ainda assim estou contente, e – como as mães daqueles putos que ninguém tem a caridade de dizer em voz alta que são feiinhos com’o pecado – acho que os meus nanogéis são os mais bonitos do mundo.

Chiça. Estou mesmo atrasada.



E agora eu era outra pessoa…
Maio 5, 2008, 2:13 pm
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Não é que eu não goste de química. Ou que me arrependa de ter decidido fazer o Doutoramento. Mas quando é Domingo e estou no laboratório, considero francamente se não havia maneira mais saudável de passar a minha vida. Género ser modelo de calendários para as oficinas de mecanicos ou virar hamburguers no MacDonalds.

Tenho pancadas diferentes consoante os dias. Hoje, se pudesse começar tudo outra vez, ia fazer um estágio na ONU em vez de andar a engonhar em Almada a achar que era bué de radical.

R.

Vagas abertas: https://jobs.un.org/elearn/production/home.html



Vamos por partes
Maio 4, 2008, 12:25 pm
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Nao sou especialmente conhecida pela suavidade do meu discurso. Longe porem dos militarismos da minha adolescencia, em que era (mais coisa menos coisa) contra tudo e todos, hoje nao ha muita coisa que me irrite solenemente, mas o grupinho de coisas que o faz é capaz de me fazer arranhar o aluminio rapidinho e eficientezinho. upa.

Uma dessas coisas- estarão alguns de vós talvez recordados- é a frase “olha que isto é tudo natural, nao tem quimicos”

Pronto. Esta está lá ao pé de gaiatas de 15 anos me informarem que “antes do 25 de Abril havia respeito e empregos e tudo”. Nada abaixo de serem fulminadas por um tonelada de Otelos (versao rechonchuda dos anos 80’s) na pinha seria apropriado para estas calamidades por isso raramente me digno a abrir a boca. Nao sei grandes argumentos para isto que nao passem por “Tu és um bocado monga, nao és? “.

A tirada do”isto-nao-tem-quimicos” no entanto é mais gravosa. Porque nao ha ninguem que contradiga, que diga de uma vez por todas : um quimico – para todos os efeitos – é um grupo de atomos unidos por ligacoes quimicas. Por essa perspectiva a agua é um quimico, o oxigenio é um quimico, tantos quimicos tantos. Um químico é o meu professor de Química Física (coitadinho) – que teve aproximadamente uma namorada a vida inteira (na pré-primária), não é um monstrinho verde cheio de dentes tóxicos a estragar a “naturalidade” das ‘moléculas-de-pureza-dos-Alpes que acabaram de ser introduzidas na nova formula do leite de limpeza da Avon.

Por isto tudo, e por outras coisas – a dieta do xarope de Ácer com maçãs, a perigosidade do Sodium Laureth Sulphate, a “limpeza” (detox) com chás, os cremes para a celulite – parece-me às vezes infrutífero clarificar equívocos: são tantos, tantos tantos. E alguns nem eu sei, até eu acredito. Se a Nivea diz que há moléculas de felicidade no creme, eu até arrisco. E um cházinho detoxificante até elimina a culpa das cervejas/chcolates/batatas fritas de ontem à noite.

Mas – ó alegria! ó clareza! valha-me São Lavoisier! – os moscãoteiros da ciência chegaram em força! Um grupo de alunos de Doutoramento aqui do UK juntaram-se há uns anos para reunir histórias de imprensa idióticas e emails pseudo-científicos e desde então teem (des)feito mitos e sabedoria da copa (aquelas pérolas que se ouvem ao pé da máquina da àgua no escritório).

Ele é livros, ele é workshops, ele é publicidade…estes tipos fazem tudo.

E eu, como tenho pouca vontade de começar a escrever a tese, fui atrás.

Agora sou parte do Sense About Science. Um destes dias, quando o assunto for nanotecnologia, ou armas químicas, ou pesticidas eles contactam-me como “expert”.

Nesse dia poderei finalmente realizar um sonho antigo:

começar o meu próprio boato científico.

Rita

PS- Visitem os moscãoteiros em http://www.senseaboutscience.org.uk/index.php/site/project/13/

PS- E os geeks da ciencia improvável em: http://www.null-hypothesis.co.uk/