Nós em Londres


Maio 24, 2007, 12:40 am
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A vida escorre lentamente por estes dois dias de sol que resolveram aparecer por Londres. Lembro-me bem do início do Verão na Graça, os putos todos na rua a jogar à bola contra o portão da nossa garagem , a gente a rogar-lhes três pragas por cada golo, de ir ao Sr. Ceguinho comprar o Expresso e curar uma noite de esplanada, com outras duas.

Todos as vezes que aparece o sol por aqui, tenho os bifes a perguntar-me: porque raio é que te vieste enfiar aqui, se no teu país tens isto o ano inteiro?

E eu, agora que as saudades me começam a corroer aquelas partes do coração que a gente nem sabe que tem, fico meia parva e lembro-me da bica e da avó e do barco para Cacilhas ao fim do dia e não tenho inglês que chegue para responder.

Porquê então?

Não tenho distância nenhuma para falar do meu país. Não lhe sei apontar os erros, as pernas mancas, as infidelidades. Não gosto de nos ver mal, de nos ver mal falados, dentro ou fora. Não acho que sirva de nada, porque falamos às vezes do nosso país como falamos da Sandra da Contabilidade, ou do Teixeira do Economato: com a mesma paixão pelo detalhe escabroso e sem grande compaixão pela vida que existe à frente e atrás do episódio. Irritam-me solenemente as generalizações, porque me parecem uma expressão de desepero e deseperança.

Não somos todos racistas só porque os calhaus da Frente Nacional têem um cartaz no Marquês de Pombal, seremos às vezes racistas, mas por outras razões. Não somos todos desgovernados, não somos todos parvos, não estamos todos a dormir.

Afino que digam “Os Portugueses…” como se estivessem a falar por mim. Sinto-me  a transformar em cada enormidade que”os portugueses” forem nessa frase. Os “portugueses” não são caloteiros, nem individualistas, nem estupidos nem negativos. Falem por vocês, caraças, que a mim já me chega.

Já me chega de não saber o que dizer quando me perguntam de onde é que vim e eu lhes falo na “saudade” e no bacalhau e na praia e no Cristiano Ronaldo, e depois acabo a contar o que são recibos verdes e porque é que tantos dos meus amigos ou já se foram embora do país, ou estão a pensar ir.

O país está maior. Estamos nos quatro cantos do mundo, e pessoas dos quatro cantos estão também em Portugal. Não somos só nós que partimos, os outros também partem e vão para outros lados. Recebem-nos nos outros sítios como nós recebemos os que nos batem à porta. Ás vezes sem grande vontade, às vezes de braços abertos, às vezes com desconfiança, às vezes com fé.

Ouvi no outro dia, sobre a emigração de e para Portugal “Aqui precisam de licenciados, em Portugal precisam de pedreiros”. Senti-me a morrer um bocadinho no coração, porque precisamos também de licenciados em Portugal, pensava eu, o que é havemos de fazer com tanta gente no call center da Tv Cabo?

Não sei falar do meu país, já disse antes. Não lhe conheço as curvas, não lhe sei desenhar a história e a sociologia justamente, acabo sempre no 25 de Abril e na cadeira do Salazar, sabendo que em Espanha andaram todos a matar-se em guerra civil e não é por isso que o país é mais ou menos coisa nenhuma.

Sinto que não é de licenciados que a gente talvez precise,é de gente que queira aí estar. E que diga assim: “eu estou aqui porque escolho aqui estar”. E de gente que saiba que a Europa é aqui ao lado, as fronteiras são mais coisas que se vêem nos mapas do Google que coisas mesmo físicas que nos impeçam de fazer coisas.

E que às vezes o sítio para se estar é onde se pode construir carreira, e que construir carreira não é arranjar um emprego, porque isso já fez a geração anterior, agora somos nós a descobrir como é que se faz  a vida, porque – isto já reparámos todos – já não há “empregos”. Daqueles empregos empregos, que têem Teixeiras na Contabilidade e Sandras no Economato e vice versa e reformas e declarações de IRS sem senhas de almoço. A geração de antes tinha um estômago que nunca tivémos para assegurar a vida deles, porque viveram de outras digestões. As nossas digestões farão o nosso estômago muito mais forte para outras coisas, saibamos nós pedir o alimento que nos convém – desculpem lá a metafora esquisita.

Porquê, então?

Porque teve que ser, e vai ser melhor para mim, para os meus pais e para os meus filhos.

Porque um dia voltaremos para fazer as coisas à nossa maneira, sem raiva, sem a frustração que agora sinto, sem sentir que o meu país me tratou com desapreço, com perdão, com humildade, com vontade, cheia de formigas na barriga, sem sobranceria, sem ter a mania que eu é que sei, que lá fora – ou cá dentro – é que é.

O meu Portugal é país de Nóbeis, de gente comum, será país de Oscares, de telenovelas ranhosas, de oportunidades, de menos oportunidades, de gente que lá nasceu, de estrangeiros.

E o meu Portugal sou eu onde estiver a dizer “aqui estou bem”.

Porquê, então?

Porque aqui estou bem.

Até que volte.

R.

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Blitz
Maio 16, 2007, 10:37 am
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Hoje levanto-me cedinho cedinho. Toda contente, apanho o Bus 277, que me leva direitinha à escola, e conto as minhas bençãos porque não tenho que me enterrar no metro durante uma hora, e posso chegar a horas e fazer montes de reacções antes do almoço, e porque sou a maior e hoje é que vai ser.

Quando o autocarro pára durante uns bons 25 minutos na estrada perto de Bethnal Green eu começo a achar que é pessoal. Há uma conspiração bem armada neste país e tem um alvo – qual Al-Qeda, qual IRA, qual gaita – o lobby “vamos deixar a tótó da portuguesa na estrada” é mais forte e mais malvado que qualquer organização terrorista que opere no Eixo do Mal nos tempos que correm. É só o Bush saber e levam pela trombinha que é um mimo.

Bom, estou eu nestes pensamentos (para que conste,os pensamentos iam na linha de: “é contra mim, tenho a certeza. é contra mim. Porquê, ó porquê, ó porquê que eu não posso sair de casa e chegar ao trabalho como uma pessoa normal, sem incidentes, com o café bebido e com olheiras até aos joelhos?”).

Ouço um tipo a falar ao telémovél: “Epá o autocarro tá parado. É por causa da bomba”. E eu : Tinóninóninóninóninóninóninóninóninóni. Montes de alarmes e campainhas na minha cabeça, imaginei-me a saltar do autocarro e mentalmente salvei todas as velhinhas e criancinhas malnutridas do autocarro enquanto escapava num mar de chamas, ilesa, heróica, uau, vou entrar para a história, salvei pessoas no ataque de Londres, sou mais porreira que o Soares em calções.

Pronto. Isto podia até ter acontecido.

Mas cheguei tarde.

Ao que parece a bomba era o que restava de um recadinho dos alemães ao povo inglês, datado de 1940 e tais, durante o Blitz londrino. Por não ter explodido na altura, ficou dormente durante 60 e tal anos à espera que uns trabalhadores da construção civil a desenterrassem (e provavelmente se acagaçassem de medunfa).

Em Évora, cada vez que alguém tirava meio metro de terra, encontravam-se caveiras e ossadas megalíticas e lá se atrasavam as obras meio ano porque era património e o diabo a quatro. Aqui, desenterram bombas do Hitler.

Epá, ao menos sempre é mais excitante.

Chego mais tarde ao trabalho, mas é mais excitante.

R.



A minhálegre casinha – Parte II
Maio 15, 2007, 12:08 am
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A minhálegre casinha – Parte I
Maio 14, 2007, 2:13 pm
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A internet na minh’alegre casinha ‘e lenta de formas que os caracois ainda nao conseguiram atingir. Por isso, ‘e verdadeiramente uma prova de amor postar fotografias no Blog. Ainda por cima o computador em casa anda a ter uso non-stop – nao s’o porque o Mil vasculha furiosamente na net todos os anuncios de trabalho, mas tambem porque nao temos televisao e estamos entregues aos downloads piratas de filmes e series para passar o tempo. Por isto tudo, e tambem por ter uma faltazinha de paciencia desde o berco, os post no blog nao vem com a frequencia de outros tempos.

Para compensar, mostro-vos a cozinha  da minha casota nova, onde eu estou sorridente, digna de uma qualquer Revistra Caras.

R.



A qu’imica ‘e uma ciencia amarela
Maio 11, 2007, 10:52 am
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A maior parte dos produtos de s’intese, ao contr’ario do que se mostra nos filmes, nao diz respeito a frasquinhos de cores porreias com fumo a sair. A grande parte dos produtos sintetizados ou bem qe sao branquinhos (o que normalmente quer dizer que estao puros) ou sao michangadas amarelas, oleosas, pegadas as paredes dos frascos.

Quando se metem metais ao barulho (Cobaltos, Magnesios, Zincos) fica tudo mais interessante e essa ‘e uma das grandes razoes pelas quais eu gosto tanto de trabalhar de metais.

Ainda nao cheguei a parte onde as minhas michangadas sao giras a brava, embora ande a brincar com uns pozinhos azuis (Cobaltos…) que ate da gosto a alma. No entanto, um dos meus “conselheiros” no laboratorio ( a quem o meu chefe chama de Obi Wan Kenobi) anda a brincar aos feiticeiros com uns ligandos tao lindos tao lindos, que assim que apanham um bocadinho de Zinco ficam fluorescentes….

Nao ‘e Lindo???

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Fotos de Emiliano Tamanini (Obi Wan)



Ainda estamos vivos
Maio 7, 2007, 11:35 pm
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Desde o dia 28 de Abril que os nossos corações de emigra andam embalados em caixas e em celofanes. Ainda que as mudanças para a nova casa prometessem um mar de facilidades – seis meses em terra alheia não dá para juntar muita tralha, pensava eu – a mudança foi lenta e cansativa.
Primeiro porque não tínhamos electricidade, depois porque não temos carro e fizémos as mudanças de autocarro (mais-uma-volta-mais-uma-viagem), e finalmente porque não tínhamos nem tachos nem panelas, nem talheres nem, portanto, nenhuma possibilidade de comer uma refeição caseira durante quase uma semana.
Além do que nestas coisas há sempre um pormenor que nos escapa, mais ainda se o novo contrato é feito em língua estrangeira e cá no fundinho do cérebro há sempre um neurónio preguiçoso que não se orienta com tantas definições e obrigações e medunfa de estar a tomar a decisão errada.
Agora já sentimos isto um bocadinho mais nosso. E muito francamente nem que nos entre o Tamisa pela porta da frente adentro não me mexo daqui para mais lado nenhum nos próximos tempos. A ideia de angariar caixas, por coisas dentro delas, deixar coisas para trás “porque não vale a pena”, comprar coisas novas para as substituir, decidir onde se poem os pratos e os tupperwares faz-me azul um bocadinho cá dentro. Para mim já chega. Daqui não saio, daqui ninguém me tira.

Em 1998 deu-me a travadinha de ir para Évora, encaixotei livros e roupas, comprei uma estante e fui viver com uma velhinha de 80 anos. Sobrevivi à “Grici”, a cadela da casa, com nome de princesa e com pedigree de rafeiro das docas ( percebi meses depois que a homenagem era à Grace do Mónaco, pasme-se) e encaixotei tudo outra vez, 6 meses depois, para uma casa de pátio mesmo em frente à Universidade, onde posso dizer com um misto de pânico e orgulho que me aconteceu de tudo – desde invasões do semi-desconhecido vizinho do lado que “só precisava de 30 contos para pagar a renda, se eu não me importava de o safar” até agonizar um fim de semana sozinha com uma gastrite sem poder telefonar a ninguém porque não tinha crédito no telefone nem força nas canetas para me levantar da cama, descer as escadas draculescas e atravessar o pátio até ao portão.
Em clima de semi-guerrilha mudei-me para longe da Universidade com ainda mais tralhas, 1 ano depois, e tudo o que não me tinha acontecido antes teve a oportunidade de uma vida de acontecer então – gatas a terem gatinhos na minha camisola preferida, soirées de vinho e poesia em vésperas de exame de Química Física ( eu “não,não a sério malta, um copito não vai ajudar a estudar melhor, a sério…a sério…A SEEEEERIO”), e o meu senhorio que afinal era presidente da Câmara em Montemor que fugiu com a secretária para Africa e nos deixou a nós a aturar os filhos e a respectiva senhora mãe deles que não percebiam nada dos recibos.
Nova mudança para Lisboa, ISTécnico e Estagio e Caos e Trevas e Escuridão como todos os estágios trazem, e 1 ano depois armo-me em pessoa adulta e atiro-me para a Graça e para a “Estrela de Sapadores” com as melhores bicas da zona e com a Senhora Mal-Disposta do café que berrava com todos os seres humanos (menos com a neta que estava a um upgradezinho de distância de ser o Demónio em carne e osso).
Mais uma travadinha minha – e raspo-me para a Grã Bretanha, para os braços da Jude e da Jenny que lavaram a chá muitas lágrimas minhas de saudades, e afogaram outras tantas em cerveja. E agora finalmente aqui. Sete mudanças em nove anos. Se vejo mais uma caixa de cartão palavra de honra que grito e arranco cabelos de tal forma que  as senhoras ciganas à porta dos tribunais vão parecer amigas da Paula Bobone.
Não saio daqui nem à bala. A única que pessoa que consegui mudar-se mais vezes que eu nos últimos anos foi o Milton, desgraçadinho, que assim que se viu debaixo deste tecto até desmaiou um bocadinho no cérebro só de contentamento.

Ainda não tirámos fotos da casa. Inocentemente achei que seria possível fotografar a casa sem mobílias meio montadas e caixotes meios rasgados ainda este século, e claramente enganei-me.

Assim que descobrir a minha paciência (ia jurar que tinha vindo na caixa das meias…) mostro-vos o nosso novo palácio.

A partir de agora, quem tiver um saco cama e um fim de semana a mais no bolso, faça o favor de aparecer.

Rita.