Nós em Londres


boa viagem, vasco
Abril 25, 2007, 5:00 pm
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Já se faz tarde,

Já partiram as últimas cadeiras da praia,

o banheiro estica a veia das pernas angulosas e estreitas pelos toldos afora e recolhe a lona das nossas cabanas precárias,

e todos os nossos tesouros – as caricas, as conchas, as pedrinhas para os aquários da avó – estão ali desnudos e tristes à espera que os leves.

É tarde, vês tu, para pedir um gelado ao avô em dia não,

poque ele já passou lá pra longe, muito depois da bóia da Yoplait,

e mesmo se nadares depressa não o apanhas (o mar está agitado, a Tia Amália já te disse)

Temos areia entranhada nas pestanas, veremos para sempre o mundo assim, meio cristalizado pelo sal,

e vai ser sempre Verão onde quer que formos,

mesmo se faltarem garrafas de TriNaranjas,

e for mais fácil esquecermos as chaves,

e for menos doloroso pensar que ainda vamos a tempo –

– de fazer um acampamento índio com canas debaixo do caramanchão,

de partir pinhas com metade de um tijolo, e fazer puré de pinhão para dar aos playmóbil-

A piscina já é pequena demais para nós,

é triste olhar para os tornozelos semi-cobertos do que antes era um meio oceano à nossa medida.

Agora é a nossa vez.

Vamos embora. Não dói nada. Diz comigo: passa rápido. Vamos embora e não olhamos para trás antes que se façam em pedra todos os triciclos que tiveste, antes que Ana não olhe para a saia de cores, antes que ela cresça e seja prova que já não temos Quinta, já não temos Avô, já ninguém vende pirulitos à porta da escola.

Vamos embora porque é preciso. “A casa é onde se faz a vida”. E avida é esta, não escolhemos outra. Anda embora,

tenho lanternas,

tenho pilhas das grandes,

se não disseres nada a ninguém levamos a flanela para fazermos paraquedas,

Vai ser num instante,

Ninguém nos viu.

Se fizeres pouco barulho, ninguém dá por nós antes de voltarmos.

R.

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Abril 24, 2007, 6:39 pm
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Quero pedir-te que não repitas isso que dizes,

que não me ataques com pinças e algodões e não me enfureças,

à força de silêncios espessos, que cristalizam em cantos da sala,

no rendilhado das teias,

nas cerejas de verões que não tenho, nunca tive,

verões que morreram ali mesmo na foz, que não desaguaram em tardes perfeitas,

como aquelas em que havia pêssegos e sandes de queijo depois do segundo mergulho

(“Já posso ir à agua, mãe? E agora? E agora já posso?”)

Queria pedir-te que me leves adormecida até aquele sítio onde eu sei que posso,

e onde posso mesmo,

ainda que possa aqui mesmo e não saiba,

ou talvez saiba mas é mais doce perguntar.

Iremos de comboio, não vai chover,

vamos aplaudir no fim da viagem onde quer que estejamos,

e não vai lá estar ninguém,

para que caibam todos connosco,

porque cabem todos melhor se ninguém lá estiver a ocupar o espaço em que eu te preciso.

R.



Bristol
Abril 23, 2007, 1:42 pm
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Esta coisa dos congressos…

…vamos admitir: quem é que vai aos congressos para aprender?

…é mais pela passeata e pelos prémios dos patrocinadores não é? É pois é…

Fui a Bristol na segunda feira passada. Uma apresentação fantástica de um escocês com um sotaque entre o Açoreano e o Suahíli, e um encontro imediato com uma pintura do Banksy (este último, sim, o meu herói).

O resto foi Guiness, e tédio, e gastar dinheiro (do chefe). Quem me dera poder dizer estas coisas no relatório que tenho que apresentar hoje…

(Fotos de E.Tamanini)

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Abril 22, 2007, 10:11 pm
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Dias em que estou ao sol, dias em que não vejo o Tejo e ainda assim é bom.

Dias em que vejo braços que se abrem para uma parte de mim, que fala outra língua, e usa outras roupas, e compra outra marca de cigarros, e vai para outros sítios.

Dias em que mudando tudo, não mudo a vontade de vencer sobre coisas que não pensava que estivessem no meu caminho, não mudo a vontade de cantar “Ó Clarinha olha as pombas….” numa versão desafinada e feliz que azedaria os Queijinhos Frescos da Ana Faria.

Tenho saudades destas miudas, e deste sítio, para onde voei dias depois de saber que ia emigrar. Foi em Trets, em Marselha, no Verão.

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Casaaaaaaaaaaa
Abril 18, 2007, 11:12 am
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Malta,

Depois de termos metido o nariz em todos os cafofos escuros desta cidade, depois de termos desmaiado aos bocadinhos com as quantidades ridiculas de dinheiro que nos pediam por dois centimetros quadrados de espaco londrino, depois de comecarmos a pensar seriamente na hipotese de alugar um barracao debaixo da London Bridge,

acordamos cedinho,

and’amos que nos fart’amos,

lev’amos uma banhada da agente imobiliaria,

fizemos figura de tolinhos sentados numa escadaria a espera dela outra vez,

vimos outro casal quase igual a nos (so que nos somos mais giros e espertos e isso) a chegar e a esperar pela agente,

vimos a agente a chegar, e a levar-nos primeiro para ver a casa, que acabava ainda de ser re-alcatifada (alcatifas deus meu, alcatifas ) ,

vimos a cozinha – graaaaaaaaaaaaaaande

e foi assim:

“Olhe desculpe, podemos ficar aqui e ser felizes para sempre e todo o ser?”

E enquanto o outro casal se preparava para dizer o mesmo, arrastamos a senhora para a agencia,

e agora,

agora ‘e que vai ser.

Vou cozinhar aos molhos,

vou comprar cortinas,

vou-me sentir em casa, pela primeira vez em meio ano.

Agora ‘e que ‘e.

A partir de dia 28, amiguinhos, tenho um sofa ‘a vossa medida em Southgate Road, em Islington.



Abril 13, 2007, 4:29 pm
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Porque ‘e que os agentes imobiliarios conduzem todos que nem os loucos?

Porque ‘e que os agentes imobiliarios falam de paredes como se estivessem a falar de alta costura?

Porque ‘e que os agentes imobiliarios nos fazem sempre crer que tudo ‘e uma pechincha – sobretudo quando nao ‘e- e que so fazem este preco porque sao nossos amigos?

Porque ‘e que o meu teclado continua a n#ao ter acentos?

Rita



Abril 10, 2007, 8:20 pm
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Já cá está o Milton (vivaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa). Agora já somos finalmente, como anunciado, e a pedido de muitas familias, “NÓS em Londres” e não “EU em Londres”, como até agora.

Desde Sábado que alegremente tropeço no português como qualquer bom emigrante que se preze, e que falo aos berros no metro na minha língua materna, e que passeio de mão dada o que ainda é melhor. Londres é uma cidade linda, mas de mão dada é melhor. E mais quentinha, e tem mais sol.

Aliás, esteve um fim de semana lindo. Numa tentativa de não cortarmos os pulsos colectivamente por termos saudades das nossas respectivas famílias na Páscoa, combinámos uma churrascada na casa do Emiliano – um dos italianos do grupo – e empanturrámos-nos de comidas tradicionais de cada país durante a tarde toda.

Devo esclarecer que, como é óbvio, o Folar que a minha avózinha mái linda me mandou foi unanimemente considerado o melhor pitéu. Desamparámos o quintal meia dúzia de espetadas e 3 kilos de cerveja depois (kilos sim kilos, porque 2 mililitros de cerveja neste país pesam toneladas) e fomos em direcção aquilo que se torna um quarto mais pequeno a cada dia que passa.

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O desespero para arranjar uma casota nova cresce a cada mala que se abre. Não há explicação para a dimensão do nosso quarto e para o tamanho das malas. A minha santinha padroeira – a grande Linda de Suza – lá sabia o que fazia e raspou-se para França só com uma malinha de cartão. Nós que nos situamos naquela nesga da sociedade entre os freaks da natureza e o burgueses urbano-depressivos, arrastamos os bocadinhos de casa que cabem numa mala e arrastamos a espinha a tentar reproduzir Lisboa em Muswell Hill.

É um exercício inglório, mas a malta ri-se cada vez que mergulhamos no soalho, à conta de um sapato ou de uma pilha de Cd’s.

Os próximos dias vão ser tão preenchidos de viagens à volta de Londres à procura de casa como os passados dias foram passados mergulhados na net à procura de anúncios.

Os nossos corações estão na zona de Islington, onde todos nos dizem não ser possível arranjar casa por menos de £270 libras por semana. Nós temos um coração resistente (a tal parte meio freak sonhadora e idealista e tal) e ainda não desistimos de encontrar um “cubíco” na Zona.

Ponham os vossos corações na mesma sintonia que por esta altura precisamos da malta toda a torcer por nós. Vá lá. É só mais desta vez.

Rita