Nós em Londres


nem só nós dois é que sabemos
Março 29, 2007, 1:34 pm
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…há momentos tão embaraçosos que são doem no coração da gente.

Eu padeço daquilo que se chama vergonha alheia. Há alturas em que mudo de canal na televisão só porque alguém está a fazer uma figura de cretino tão grande que eu coro até às orelhas. Acontece-me sempre que a Catarina Furtad abre a boca, por exemplo, e nos brinda com valiosos momentos de esquizofrenia artística: “agora-sou-uma-serena-candidata-a-actriz-que-se-preocupa-com-o-mundo-e-as-criancinhas do Biafra” alternados com “pró-paaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaalco”(alguém-dê-um Valium-à-miuda, por favor).

Como não estou em Pot ugal não assisti à Gala dos 50 anos da RTP.A navegar no You Tube à procura dos gato fedorento, deixei-me estar a ver bocadinhos da gala que uma qualquer alma caridosa resolveu postar.

Encontrei isto, e nunca tive tanta vergnha alheia na vida.

Este, caros amigos, é um momento para a História. Aguém traga o Sputnik de volta e ponha lá este pedacinho de desastre para dar à posteridade.

Eu pessoalmente só consegui ver até à parte “Atão mas já acabou?”

Rui, meu pá. Emigra. Vai-te embora. Aluga uma caverna.

Meu….pá….nem há palavras para isto.

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Austria
Março 27, 2007, 1:44 pm
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A neve, toda gente sabe, é linda. E por ser tão linda, as miúdas parecem todas re-incarnações da Heidi, e os homens parecem todos que são versões hiper-evoluídas de caçadores do futuro, com um ar todo determinado e desportista. Por isso mesmo, os nossos primeiros dias foram passados ora a embasbacar para os campos todos gelados, ou a embasbacar para os casais olímpicos que se passeavam por Kitzbuhel. As próprias crianças tinham um ar todo atlético e não raras vezes demos por nós a sentir-nos do tamanho de ervilhas porque uma criancinha de dez anos fazia um loop todo pró com os skis enquanto que nós , meios patêgos, comíamos neve a cada dez passos.

Mais do que isso, estávamos os dois a rolar na neve perdidos de riso com os tralhos um do outro, num parquezinho onde basicamente só as crianças de 5 anos andavam. Eu pessoalmente, sou a corredora de trenó mais bera da faixa etária 3-6 anos, embora tenha ainda a derreter alguma neve nos ossos da tanta que comi.

Tivémos uma sorte incrível. Depois de um inverno inteiro sem neve, começou a nevar (neve mesmo a sério como nos filmes) no dia a seguir a lá chegarmos. Demorámos três dias a querer sair do hotel, porque era tudo tão confortável e comia-se tão bem e dormia-se tão melhor que foi preciso uma espátula para nos arrancar da sauna e dos sofás do KitzHof.

Assim que saímos para beber uma cervejinha, deparámos com um cachecol de Portugal, e outro do Benfica (…não se pode ter tudo…) que protegiam um português atrás do bar do “Londoner“. Um passatempo do pessoal atrás do bar, liderado pelo tuga Roberto, era partir copos na cabeça uns dos outros e ensopar t-shirts com tequilla e pegar-lhes fogo – por ordem da patroa, o pessoal atrás do bar tinha sempre que estar mais bêbado que os clientes. É claro, portanto, que um algarvio aqui estava claramente no seu elemento natural.

Nós, inundados deste espírito, também nos armámos em espertos, e ainda ando a espirrar à conta dos mergulhos na neve às duas da manhã.

anjinhos na neve

cara-na-neve

Loucuras e parvalheiras à parte, a viagem foi incrível.Foi a prova provada que as coisas boas acontecem, é só preciso a gente ter um bocadinho de paciência e continuar a comprar os bilhetes todos de lotaria, até termos no bolso aquele que nos leva aos sítios que queremos ir. É muita piroso isto que digo, mas as coisas que se sentem muito a maior parte das vezes são um bocado ridículas.

No dia em que me candidatei a esta coisa,estava a sentir-me um bidé manhoso porque era sexta feira à noite e não tinha amigos que me levassem a passear. Apetece-me voltar à Rita desse dia e dizer-lhe que não se preocupe, que vai correr tudo bem, que este dia – surpresa das surpresas – vai resultar numa semana como ela nem imagina, num sítio que ela nem acredita que existe.

Num sítio mais ou menos assim:em frente ao hotel



Notícias do Tirol
Março 24, 2007, 11:58 am
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Ainda estamos na austria, a pagar uma pequena fortuna por cada minuto de internet. Por isso mesmo, e porque os ossinhos estao tao partidinhos dos malhancos de ski que ate escrever ao computador dói, aqui vao imagens, que valem mais que palavras afinal de contas….

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lovebirds na neve



Noutras noticias…
Março 15, 2007, 7:36 pm
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O meu “outro significativo”, que ‘e como quem diz a minha cara metade, vira’ direitinho do Aeroporto da Portela para os meus bracos amanha por esta hora.

Vamos ter que ir festejar o dia de S.Patrick, que e’ uma data toda significante aqui pelas terras da Sodona Elizabete de Windsor, embora sejam os Irlandeses quem mais vibram com o dito santo. Nao temos grande escolha entre ir e nao ir ‘a festa de Paddy’s Day em casa do chefe. O pos-doc do grupo e’ irlandes e ia-me assando na estufa quando lhe disse que estava a pensar baldar-me.

Conhecendo esta malta, pelas nove da noite ja esta tudo tao bebido que nem dao pela minha falta.

A minha supervisora foi mae na sexta feira. ‘E bom saber que os niveis hormonais da senhora descerao finalmente para um nivel semi-humano e que poderemos conversar como pessoas normais, sem que eu tenha medo que ela me de um estalo a meio da conversa porque eu estou a roer o lapis, ou qqr coisa do genero.

Novos ciclos estao quase a comecar- nova casa, nova etapa experimental, a minha familia significante perto de mim, finalmente. Ha primavera em todo lado, era ja tempo de ela chegar tambem ‘a minha vida.

Rita



Post escrito sem acentos para estimular as leituras mais estapafurdias
Março 15, 2007, 7:24 pm
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Os ultimos dias nao teem sido faceis. A sair do laboratorio as 21H30 na melhor das hipoteses e a chegar a casa a tarde e mas horas sem grande paciencia de cozinhar um ovo estrelado que seja. Muita pizza comi eu nestes dias, senhores. Os meus olhos transformam-se lentamente em fatias de peperoni, sem que eu me de grande conta disso.

A azafama prende-se com a necessidade de deixar as coisas mais pou menos adiantadas no laboratorio para poder ir de ferias para a Austria no Sabado. E tudo seria lindo, se as minhas reaccoes nao fizessem gala de me deixar a beira das lagrimas dia sim, dia nao.

Ja repeti o mesmo protocolo tantas vezes que so de olhar para os frasquinhos me da nervos. E depois, claro, as decisoes que se fazem nesses momentos sao no minimo dos minimos, cretinas.

Tambem me da nervos que este teclado nao tenha acentos, mas isso ja sao outras historias.

Exemplo: Um dos meus compostos ficou contaminado por uma pessegada qualquer amarela e eu parti do principio que estava completamente arruinado.  Por isso mesmo, comecei tudo de novo. Dois dias mais tarde, quando por um milagre qualquer consegui escangalhar uma reaccao tao simples tao simples que o meu sobrinho provavelmente conseguia fazer, voltei-me em desespero para o composto contaminado e percebi que era o rasco que estava amarelo, e nao o desgracado produto da reaccao. Dois dias a menos, tres pizzas a mais.

Neste preciso momento esta um frasquinho num agitador magnetico que contem la dentro 100 miligramas dos meus ultimos 5 meses. A sensacao e indescritivel. Um misto de panico e relaxamento. Tudo ainda pode correr mal, embora muitos milagres tenham que acontecer para que aquilo de para o torto.

Trabalhar num laboratorio e trabalhar numa cozinha. Fazemos bolos todos os dias. Meia grama disto, meia grama daquilo, meia hora de forno, untar as formas. Mas estes bolos tem receitas de muitos meses, e muito neuronio queimado pelo caminho. E se a meio da receita qualquer coisa cai no chao, apanha ar, tropeca em desconcentracao – faz-se tudo de novo. As vezes que forem precisas.

E’ por isso que as vezes acho que jogamos xadrez ‘as cegas com um bicho meio indomavel que e o nosso objectivo. E ele e escorregadio que se farta. E as vezes parece os irmaos mais novos que apagam a televisao mesmo quando o golo esta quase a acontecer.

Andamos com o coracao nas maos, “ate-aqui-tudo-bem-ate-aqui-tudo-bem”, a tentar nao achar que ja la chegamos, para nao termos um balde de agua fria a nossa espera ao fim de  cinco meses.

Disseram-me no inicio que esta sintese me levaria cerca de tres semanas. Levou-me 20 semanas, 30 reaccoes, e varios improperios e ameacas aos frasquinhos.

Mas agora estou tao cansada que nem me consigo sentir contente. So de pensar na minha caminha ate me da arrepios.



Março 13, 2007, 2:43 am
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“Do not pray for easy lives, pray to be stronger men”

J.F.Kennedy

[Tradução mal amanhada: “Não rezem por vidas mais fáceis, rezem para serem homens mais fortes”]



Março 10, 2007, 1:50 am
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Até nem me apetecia nada ir para os Laboratórios de ensino hoje. Estava cansada, não tinha dormido decentemente e tinha muito trabalho para fazer. Estava num dia em que não podia ouvir os meus colegas respirar, cada respingo de acetona nas luvas parecia que era de propósito para me chatear. Infeliz e hormonal, portanto. Óptimo estado para dar aulas.

Nunca pensei vir a empatizar com a dor dos docentes, mas efectivamente os alunos às vezes é mesmo só ao estalo. Parece que fazem gala de se armarem em idiotas. Num laboratório de ensino, onde ainda por cima não temos estatuto de professor, somos a maior parte das vezes tratados como o parente pobre da mobília. Há copos de precipitação com mais estatuto que nós. E depois o resto dos europeus é que são malcriadões. Se me saísse com os olhares maléficos que eles às vezes me deitam para os meus professores o mais provável era andar o resto da vida a tentar fazer a cadeira. Aliás, já repeti cadeiras por menos.

Todas as semanas é a mesma história: roubam amostras dos colegas, roubam as nossas folhas de respostas, tentam sacar a folha de presenças para assinarem pelos amigos, fingem que perderam a amostra para não terem que fazer o resto da aula. Em suma, uma granda má onda. Assim que subimos as escadas faz-se um burburinho a ver quem é que vai ser o primeiro a fazer-nos a folha. Eles sabem que somos alunos de primeiro ano, estamos tenrinhos, não queremos chatices.

Eu a subir os degraus já a ferver, eles aos risinhos a gozar connosco, dormi menos de cinco horas, tenho três horas de insónia coladas à alma, tenho saudades da minha mãezinha, tenho uma coluna de cromatografia empatada à conta destas criaturas e um aluno lembra-se de me perguntar, armado em D.Corleoni na puberdade “mais ainda demora muito ou quê?”, e eu , abro as narinas, cara número três segurem-me-que-eu-vou-me-a-ele e atravesso a entrada direitinha aos olhos estarrecidos do puto imberbe : “ou quê”.

Tiras uma miúda de Almada, não tiras Almada da miúda. Tungas laricas. Toma-lá que já almoçaste e tens muita sorte que eu até costumava ir beber ao café Ninja lá na Cova da Piedade.

Senti-me a maior, ficou tudo verdinho, os meus colegas vieram atrás de mim em bando. “Boa! Boa! Ganhámos e tal.” Sou a maior caraças, agora é que eles vão ver. Nunca mais me falam como se fosse empregada deles, mas eles julgam que eu sou quem.

Estava lançada. Queria mais.Típico exercício do pequeno poder, mas eu queria lá saber.
Abri as hostilidades por ir direitinha ao grupinho de asiáticas que teimam em não estragar o degradé de caracóis todas as semanas e me fazem andar atrás delas a pedir que apanhem o cabelo. Recebi o mesmo “mas-toda-a-gente-está-com-o-cabelo-solto” que é um ensaio para me dizerem que eu estou a ser racista. Não é. Há tantas razões para eu não as gramar sem ser a etnia, que eu nem preciso de ir por aí. “Eu não te estou a dar opção, estou-te a dizer. Estás no meu laboratório, segues as minhas regras”.

Uma vozinha dentro de mim aclarou-se e disse-me: “Parabéns Rita. Acabaste de te tornar uma velhinha amarga com cem anos e rodeada de gatos”

Estava tão perto de ser fixe, mázona e tal, estilosa e ameaçadora. A partir daqui ou aprendo a jogar canasta decentemente ou estou lixada.

oldlady.jpg

Rita.