Nós em Londres


Oxidação de Swern
Fevereiro 27, 2007, 11:51 pm
Filed under: Uncategorized

Sexta feira lá se fez a desgraçada da oral sobre o meu PhD. Sentadinha em frente às quatro criaturas que constituem o meu júri, lembrei-me vezes sem conta de como era relaxante estar no Call Center. Ainda que tivesse vontade de cortar os pulsos cada vez que lá entrava, assim com’assim, se estivesse chateada de lá estar bastava pôr a chamada em silêncio e insultava o cliente até estar satisfeita e pronta a fingir que me importava com a falta do canal Oração Cristã em Massamá.

A oral correu bem. Perguntaram-me precisamente aquilo que eu sabia. Se têm arriscado mais uma pergunta eu ia ser obrigada a fazer figura de parva. Felizmente, a dada altura desistiram de fazer perguntas porque ficaram todos animados com uma reacção de oxidação que me anda a pôr doida há meses porque não há meio de eu a conseguir fazer  no laboratório.

Depois de tudo conversadinho descobrimos que eu tenho sorte porque a reacção que eu andava a repetir vezes sem conta é…como dizer… explosiva. Á temperatura ambiente, a coisa tente portanto a …explodir. Portanto não só eu tive uma sorte…digamos …do caraçinhas…como consegui a proeza de ter essa sorte cinco vezes, que foram as vezes todas que eu repeti a reacção.

A reacção tem que ser feita a -78ºC (num banho-maria de Azoto líquido e Acetato de Etilo) e tem que ser mantida sempre a esta temperatura até ao fim. A Sara, que é rapariga (Pós-Doc) cujo trabalho eu estou a seguir e que portanto faria o papel de minha mentora se abrisse a boca de vez em quando (nos intervalos de emborcar cerveja, por exemplo) disse-me 20 vezes para fazer à temperatura ambiente que dava melhores rendimentos (nas poucas ocasiões em que efectivamente trocámos ideias). Com ideias destas bem podia estar a emborcar mais umas no Pub, digo eu, mas isso agora não interessa nada.

Felizmente tive a iluminação de fazer a reacção a temperatura negativa e deixar lentamente aquecer até à temperatura ambiente, o que deve ter ajudado a estabilizar a reactividade da coisa.

Ainda assim, ia morrendo e portanto: AAAAAAAAAAPRE (*)

Depois de chegarmos todos à conclusão que a reação era explosiva, e de eu ter ficado sem pinga de sangue, fiquei felícissima de saber que tenho que repetir a gaita da reacção mais uma vez, logo agora que tinha descoberto alternativas com Cromato de Potássio, que não só é passa de laranja fosforescente para verdinho o que é bonito e é facil de manejar como (já agora) não explode nem que o insulte. Nota mental: nunca subestimar o egocentrismo de um químico. Eles ficaram tão satisfeitos com os seus grandes génios que agora querem “só ver se afinal dá”.

O melhor de tudo é que um dos produtos desta reacção é um gás que é identificado como o cheiro a ovos podres. “Cheiro a ovos podres” é uma coisa que os químicos usam só para não serem obrigados a escrever nos livros todos bem encadernados e cheios de esquemas porreiros as palavras “cheiro a traque”. Porque é precisamente o produto de uma grendessíssima festivalada de Feijoada à Brasileira a que esta gaita cheira.

Isto é: se a reacção correr mal, expludo. Se correr bem, fico a snifar…”ovos podres”… a tarde inteira.

É uma grande verdade esta que confirmo diariamente, de  que o mexilhão tem, efectivamente, uma vida lixada.

swern_oxidation_scheme.JPG

Rita

(*) que é para não dizer outra coisa que rima com Côsa-se.



Portobello Market
Fevereiro 22, 2007, 1:00 pm
Filed under: Uncategorized

Longe do pregão mais português de todos os tempos [a saber: “aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiiiiii q’a cigana táááááááá maluuuuuuuca! levem levem levem levem levem freguesaaaaaaas”] o mercado de Portobello não tem pregões. Tem Jamaicanos e Árabes sentados lado a lado com meninas de boas famílias que são tão rebeldes tão rebeldes que usam botas de salto com calças de ganga e boné, e desafiam o paizinho porque decidiram ir beber cafés enfadados em frente à roupa que trouxeram de Marrocos para vender aqui.

Eu gosto deste sítio por uma série de razões, mas sobretudo porque aqui encontro à venda coisas que eu julgava que eu era a única a achar fenomenal.

Exemplo? Um body para bébé dos SexPistols.

sõdona

dsc00474.JPGdsc00473.JPG
dsc00475.JPG



Fevereiro 22, 2007, 3:07 am
Filed under: Uncategorized

Hoje vi no metro uma senhora de burka a ler uma biografia do Jimmi Hendrix.

Juro. Vi com estes olhinhos enramelados, depois da primeira chavena de alcatrão cafeínado do dia, portanto sei que não estava a dormir.

Depois de embasbacar em choque e procurar câmaras dos Apanhados, pus-me a imaginar se as senhoras de burka, debaixo do pano preto têm direito a pertencer a tribos urbanas. Esta, por exemplo, podia ter por baixo uma t-shirt dos Carcass, ou tatuagens do BollyCao, ou uma pulseira do Festival do Sudoeste.

Com isto tudo percebi que estava a olhar há meia hora para a senhora com um sorriso de orelha a orelha. O olhar fulminante que levei – sobretudo porque a criatura só tem os olhinhos de fora e tem os músculos dos olhos todos em dia – fez-me desejar ter a minha própria burka  para desaparecer lá dentro.

Assustador, meus caros, assustador.



Então vá…
Fevereiro 18, 2007, 10:13 pm
Filed under: Uncategorized

Tenho-me portado bem. Tenho poupado toda a gente de conversa científica. Nem uma vez se falou nestas páginas da guerra aberta que estou a ter com os meus ligandos ciclicos – e olhem que está a ser sangrenta. O que vale é passo o dia a snifar éter etílico e lá vou ficando anestesiada.

Agora é que já não pode ser esta rebaldaria. Sentadinhos? Preparadinhos? Ele aí está. O meu projecto de Doutoramento.

Ainda não tem título, mas será qualquer coisa como “Síntese de Complexos de Coordenação com aplicação em Impressão Molecular”. É mais ou menos adaptado do meu título de estágio, mas também em cima da hora achei melhor não arriscar num titulo ridiculo que depois me viesse atormentar.

E o que é que eu quero fazer? Boa pergunta, metade das vezes nem eu sei. Aqui dizem que quando acabas a Licenciatura achas que sabes tudo, depois fazes o Mestrado(que é o equivalente à nossa licenciatura mais ou menos) e percebes que não sabes nada, e quando acabas o Doutoramento percebes que ninguém sabe nada. Eu ainda estou na fase que acho que não sei nada. Já falta pouco, pronto, valha-nos isso.

O nosso objectivo é arranjar uma forma de catalisar a hidrólise de fosfatos.

(Confusos? Então vá…Vamos por partes).

Os agentes de nervos, normalmente referidos como armas químicas, são proibidos há já uma catrefada de anos pela Convenção de Genebra. No entanto, hoje em dia, um stock de cerca de 69.000 toneladas está declaradamente espalhado pelo mundo – isto sem contar com os stocks clandestinos. A toxicidade destes compostos é extremamente elevada porque basicamente eles ligam-se irreversivelmente aos receptores nervosos do nosso cérebro que estão encarregegues de nos relaxar (impedem a acção de uma enzima que corta a transmissão de impulsos nervosos). Isto quer dizer, que mesmo em concentrações muito baixas (cerca de 0.01 miligramas para o gas VX, por exemplo) os impulsos nervosos vão sendo acumulados no nosso corpo, e por isso os músculos as glandulas e os orgãos são disparados incessantemente até colapsarem. Não é uma morte nada bonita e ás vezes embora o processo seja irreversivel, não é necessariamente rápido.

Sabem aquele senhor que diz que havia chatices no Iraque e que eles eram uns malandros e cheiravam mal dos pés e que tinham Armas de Destruição Maciça? Eram estas as armas. Se bem que depois ninguém as encontrou…mas isso já são outros quinhentos paus.

O pior com estas armas é que as moleculas que as compõem são muito estáveis: são fosfatos (a maior parte deles). O nosso DNA também tem fosfatos, por isso ainda bem que as moléculas são estáveis senão a malta não ia muito longe. A Natureza, essa grande maluca, arranjou maneira de acelerar a destruição destes fosfatos usando enzimas.

Enzimas são uns catalisadores muito especiais. São muito específcos e flexíveis e os químicos andam sempre a tentar arranjar maneira de as imitar sinteticamente e normalmente não se safam. A tarefa de imitar a Natureza é estimulante, mas a dita cuja já teve uns biliões de anos para aperfeiçoar o processo e os químicos ainda agora começaram.

A chatice é que as enzimas não funcionam a altas temperaturas nem em pH’s muito àcidos, nem duram muito tempo.

Uma maneira de tentar imitar o comportamento das enzimas é construir um molde à volta da nossa molecula-alvo, com um polímero, num processo chamado Molecular Imprinting (Impressão Molecular). Depois sacamos a molécula desse molde, e ficamos com uma cavidade muito específica- quase como uma impressão digital- que vai mais tarde conseguir reconhecer o alvo quando voltar a tomar contacto com uma mistura onde a molecula-alvo esteja.

Nós vamos fazer isto e – se tudo correr bem – imprimimos no tal molde um catalisador de Cobalto. Assim, não só detectamos a molécula de gás de nervos como a destruímos, usando para isso o material menos poluente de todos : àgua.

Tcharaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaan

Não é tão lindo?

Nota:Perdoem-me os químicos pela incorrecção na linguagem científica, mas vocês sabem o que dói tentar explicar um trabalho de Doutoramento noutra língua que não seja chinês.



esmola a mais, santo desconfiado
Fevereiro 14, 2007, 12:03 pm
Filed under: Uncategorized

Não sei como. Acho que devia jogar na lotaria porque pelos vistos estou em maré de sorte.

Devido à minha falta total de vida social (“olha! rimei!”) costumo ir à Time Out Magazine, que é assim uma espécie de suplemento Y do Público mas em bom, e concorri a uma coisa que nem sabia muito bem o que era.

Aqui há uns dias recebi um email a dizer que tinha ganho. Desde esse dia tive sempre em grande esforço mental para não me entusiasmar. Não é que tenha especial prazer em ser negativa, mas desde que obriguei os meus pais a ir receber um fim de semana para a familia no Algarve que no fim das contas era uma patranha qualquer de time-sharing nunca mais fui a mesma crente.

Assim sendo estive sempre à espera que me dissessem “pronto, é só vir receber o prémio e pagar [uma barbaridade pl’] a pequena taxa de [não sei quê] que lhe permite receber o prémio”.

Eu depois dizia-lhes “aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah gatunos! eu bem sabiiiia! bem feita que nem me entusiasmei nem nada! não me vencem não me vencem! ahaahahahahahahahah (gargalhada cavernosa)”

Pois bem. Oficialmente, é a trigésima vez que perguntei à senhora “Mas não tenho mesmo que pagar nada? (ênfase no MESMO?). Ela oficialmente já está farta de me responder que não. Asssim sendo, estou oficielmente histérica com o facto de ter ganho uma viagem de ski durante uma semana para duas pessoas na Austria, aqui, tudo pago.

Obrigada aos senhores da directski.com. Agora com licença que tenho que ir lá fora gritar:

YUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUPIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII



É injusto…
Fevereiro 9, 2007, 6:52 pm
Filed under: Uncategorized

Bem sei que em Lisboa o sol de ontem chuta para bingo qualquer dia nesta cidade, mas no único dia que cai neve a sério aqui, daquelas neves de fechar escolas e de fazer bonecos e batalhas de neve, eu estou a bordo de um avião.

Quando cheguei ao laboratório hoje, tinha dezenas de fotos de neve no email, mandadas pelos meus colegas de bancada, que sabem o meu entusiasmo pelo fenómeno.

Para eles achar graça à neve é pitoresco…e para eles Portugal é um país tropical. O ar espantado deles quando eu lhes expliquei que efectivamente estava quentinho em Portugal, mas que acharem que lá estavam 30ºC é um bocado de exagero, é impagável.

O meu país é bonito e lindo e tudo e tudo, mas não fica em África… e já agora para os portugueses inveterados que acham que para lá da fronteira só há glaciares e bicas mal tiradas…bem….não estão muito longe da verdade.

Eis a minha Universidade ontem…hoje era só um campo minado de lama e piso escorregadio…

(Fotos de Emiliano Tamanini)

neve na escola

neve no canal que passa pela escola



Sim
Fevereiro 9, 2007, 2:55 pm
Filed under: Uncategorized

Não posso votar desta vez. Embaixadas e papeladas e frustrações burocráticas do género impedem-me de ir por a cruzinha no boletim a que tenho o direito.

Dizia-me o Eduardo no outro dia, que também partilha comigo a cidade e as saudades de uma bela bica Delta, que já nem quer conversas nem debates nem coisa nenhuma sobre o aborto. Já só quer ir lá votar, que é a única coisa que não pode (pelas mesmas razões que eu).

Eu partilho o cansaço de alguns anos de debates de café sem grande resultado, e chego cada vez mais à conclusão que tenho em mim um gene qualquer anti-democrático que me faz saltar uma espécie de mola mental passivo-agressiva (sem a parte passiva) de cada vez que me são apresentadas algumas argumentações mais bajoscas.

Uma resposta de “tu ficas com a tua que eu fico com a minha” é razão para me pôr a massacrar o dedo mindinho debaixo da mesa tentando que ele não agarre no resto da mão e a espete na bochecha que acabou de falar. Confesso – eu sei que não é bonito – tenho um ditadorzinho meio anarca entre o meu coração e a minha boca.

Desta vez aflige-me mais.

Portugal é o único país da Europa em que uma mulher é penalizada por recorrer á interrupção voluntária da gravidez. Tive que mostrar na internet as noticias aos meus colegas daqui porque eles não acreditavam que isso fosse possível.

Depois mostrei-lhes a campanha do não. Disse-lhes que defendiam o direito “á vida”. E perguntaram-me “Então, mas não é possível por Lei interromper uma gravidez de uma criança com malformações, ou fruto de uma violação?” É pois é.” Então isso significa que esses fetos são menos vida que os outros?”. Significa. Até agora a nossa Lei é isso mesmo que diz. Entre outras coisas mais perversas.

Independente do que aquilo que a nossa moral religiosa ou civil nos disser sobre este assunto, estamos a referendar a penalização de um processo clínico que JÁ É PERMITIDO POR LEI. Quer isto dizer que o argumento do “direito à vida” deve dizer respeito a toda a vida e não a umas vidas que “são mais iguais que as outras”. Se efectivamente não concordarem com este processo clínico, o local para o demonstrarem não é na cruzinha do Não. O Não não pode usar como argumento esta espécie de superioridade moral com que nos trata de assassinas e assassinos, porque se for essa a verdade – então sê-lo-emos já todos.

O argumento da moralidade ofende-me pessoalmente. Compaixão, o sentimento mais exaltado por todas as religiões, é o sentimento de “tomar a dor dos outros como a nossa, remover o seu sofrimento e conceder-lhes alegria”. Não concebo como se possa sequer articular a frase “abortar só porque sim” e levo a mal a deus, a buda, a alá ou a quem for que não caia um raio na língua de quem o faça.

O Ricardo Araújo Pereira, em resposta a uma senhora que fazia uso deste pedaço de ignorância escreveu “eu não conheço nenhuma mulher que faça um aborto só porque sim, mas isso também deve ser porque eu não conheço mulheres que são atrasadas mentais”.

Eu faço das palavras dele as minhas e acrescento que é preciso ter um coração imerso numa superioridade moral auto-proclamada  e bacoca para achar que exista quem se submeta a uma violência destas cronicamente, “só porque sim”. Uma vida é uma vida para qualquer pessoa, para qualquer mulher, para qualquer mulher grávida. Moralmente, estraçalha toda a gente. Fisicamente, estraçalha às vezes para sempre a mulher que a isso se submete. As “pessoas” em nome de quem se quer limitar esta acção e penalizá-la, têm cabeça, têm coração, são seres humanos e nunca decidirão “só porque sim”. Em nome de uma alminha que talvez tenham ouvido falar nestes termos um dia numa qualquer hora nobre não vamos considerar a população portuguesa inteira como selvagenzinhos que não sabem o que fazer das suas proles.

Sabemos, e sofremos todos com este estado de coisas. Morrem pessoas em parteiras de vão de escada, pessoas a sério que têm se calhar outros filhos e outras vidas à sua espera. Perdoem-me o melodramatismo, mas no domingo isto não pode acontecer mais.

Epá não pode ser, não pode ser. Vá lá.

Vão lá.