Nós em Londres


(faltam 4 dias)
Dezembro 11, 2006, 11:32 pm
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Os amigos chegam nas férias, com flocos de neve ainda no nariz e autocolantes novos no passaporte.

Trazem albuns de fotografias, amigos novos e problemas por resolver connosco,

e nós nem demos pelo tempo a passar,

mesmo se cada dia foi lento e ainda estamos a recuperar, meio estúpidos, pela partida.

Tentamos as palavras mais certas até sabermos que o coração se encontra intacto e a distância não excedeu o comprimento do laço que – pasme-se – lá vai resistindo ao caruncho e à erosão do tempo,

e aos namorados novos, que surgem sempre nas piores alturas, quando não temos tempo para eles e outros nos querem mais.

Os amigos chegam no dia em que entramos de férias e levam-nos àquele sítio onde nos esquecemos das horas e do último autocarro, onde perdemos uma boleia e afinal foi tão melhor,

fazem-nos beber cerveja pela garrafa,

e  chorar depois de rir depois de chorar

depois levam-nos a casa, e percebem que 600 ou 700 kilómetros não chegam para mudar quase nada,

embora esteja tudo diferente.

Rita

(em 14 de Dezembro de 200, enquanto esperava o regresso de outros que não eu)

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OLHA EU!
Dezembro 8, 2006, 5:38 pm
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Epá que grande cena.

Acabei de saber que escolheram o meu texto para o primeiro número da Newsletter europeia do nosso projecto!!!

Pediram aos alunos de Doutoramento para escreverem algumas palavras sobre os primeiros meses de adaptação. Eu – para variar – excedi-me nas palavras e por isso não estava à espera de ser escolhida.Pois parece que fui, e que acabaram por fazer disto um artigo de uma página, com fotografia e tudo.

Tenho pena é de não me ter penteado. Pareço meia tótó, mas enfim.

Aliás, a bem da verdade, eu até me penteei, só que a electricidade estática aqui é tanta, que apesar dos esforços da minha escova, acabo sempre por parecer a fã número 1 do Marylin Manson.

Vão ver aqui a nossa newsletter: Olha o que eu escrevi!
(meu artigo na pagina 3)

E aqui a minha biografia: Olha eu!

Granda pinta, pá!!

Rita



Já passou…
Dezembro 8, 2006, 5:27 pm
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Levantei-me, juntamente com as borboletas no meu estômago, e dirigi-me para o palco.

O anfitrião andou à roda com o meu nome, eu fiz uma piada, eles riram-se. Ouvi  minha própria voz como se estivesse no fundo do poço.

Segurei numa caneta como se a minha vida dependesse disso e com essa muleta – nem sei lá muito bem como – a voz lá foi saindo aos tropeções.

Volta e meia era com cada calhauzada na gramática que até eu me aleijava, mas o que vale é que metade das pessoas aqui nem falam inglês decente e ninguém acusou o toque.

A meio comecei-me a entusiasmar de tal maneira enquanto descrevia moléculas a saltar de um lado para o outro, que as minhas mãos começaram a viajar pelo espaço e  parecia que estava num concerto mais do que numa apresentação.

Duas respiradelas depois, naquilo que foram os dez minutos mais longos dos últimos dois meses, tinha acabado.

Os biológos estavam todos em fúria porque o que o meu trabalho propõe é catalisar uma reacção que as enzimas – as meninas dos olhos da Biologia – também fazem. Toda a gente já me tinha avisado que isso ia acontecer portanto eu já ia mais ou menos preparada para as granadas – disse-lhes que ninguém quer subtituir as enzimas, a unica coisa que queremos é chegar aos sitios que elas não chegam: altas temperaturas, solventes orgânicos, coisas do género.

Eles lá respiraram fundo, e eu também. Depois um tipo alemão que é enzimologista começou-me a fazer uma pergunta. Ora, os alemães a falar inglês normalmente não são grande espingarda. Eu a falar inglês lá me safo, mas também não sou perita. Agora imaginem um alemão a fazer uma pergunta a uma portuguesa, em inglês, no momento em que a portuguesa está sob stress. Pois é. Chinês, foi o que eu ouvi.

Felizmente o mesmo aconteceu para o resto do auditório. Olhei à volta e estava tudo com a cara de “Quêêê? “,e isso lá me deu confiança para lhe dizer que não tinha percebido a pergunta. Ele repetiu. Fiquei exactamente na mesma, por isso, respondi a uma questão imaginária que escolhi no mesmo instante e que usava as unicas palavras que eu tinha percebido da pergunta toda: “Transition state analogues”. Ele teve vergonha de dizer que nao foi isso q ele perguntou e calou-se, e toda gente ficou feliz.

Recebi umas palmadinhas nas costas, e estou, confesso, um bocadinho orgulhosa. Não foi brilhante, longe disso, mas também não foi vergonhoso.

Quer isto dizer, malta, que já está.

Pronto. Finito. Kaput. Acabou.

Agora é só engonhar no laboratório mais uma semana e HOOOOOOOOOOOME!!!

Rita.

Lisboooooooaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa



Dezembro 5, 2006, 5:20 pm
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…pronto, já percebi que consigo fazer isto, que sou muito valente, e que afinal quando uma pessoa  quer até pode fazer coisas fantásticas….

…agora só queria mesmo era ir para casa.

Rita



Brasis…
Dezembro 3, 2006, 12:35 am
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Uma das primeiras recordações que tenho de infância é sentir os pés frios na tijoleira da sala, enquanto tinha nos ouvidos uns headphones maiores que a minha cabeça e a da minha irmã juntas. Pela imaginação adentro entrava-me Bertol Brecht em versão samba, pelas mãos do Chico Buarque, na Ópera do Malandro. Não tendo nunca sido grande aficcionada das novelas, que é por onde tantas vezes criamos a nossa imagem do Brasil, apaixonei-me pela Bahia do Jorge Amado, à custa de tanto ouvir o meu pai a falar da “Teresa Baptista , Cansada de Guerra”. E ainda me lembro que uma das primeiras vezes em que me senti adulta foi quando o meu pai me deixou ler a “Dona Flor e os seus dois maridos”.

Conheci também o Brasil dos Capitães da Areia, obra que mais tarde me veio atrapalhar a oral de Métodos Instrumentais de Análise, e abrir as portas de um palco meio improvisado de que muito me orgulho e para o qual arrastei, juntamente com a Rita Jacob, toda a gente que conhecia.

Capitães da Areia_pelas oficinas de Experimentação do GATUE

Recentemente, estando eu já em Londres, pai e mãe foram finalmente espreitar o trapiche do Pedro Bala, e o café da Gabriela Cravo&Canela à Bahia. De lá foram-me dando um relato um tanto desiludido de um país lindo, de gente fantástica, onde a miséria e a riqueza convivem paredes meias num à vontade impressionante.

É disto que fala o Seu Jorge, que está em vias de se tornar o meu heroi musical, nesta canção “Brasis”. É bestial , este tipo. Vejam por vocês.



Ina pá…
Dezembro 2, 2006, 3:08 pm
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O tempo vai passando e estou cada vez mais perto de casa. Já faltam menos de duas semanas, e há uma pergunta que não me sai da cabeça:
” Como é que já estamos em Dezembro????????????????”

É verdade que tive dias em que cada minuto passava a conta-gotas, e em que adivinhava que estavam uma série de dias engarrafados e apertadinhos, a tentar não passar pelo gargalo, determinados a fazer dois meses durar dois anos.

Mas esses dias foram alternados com semanas de “como é que já é quinta feira se ainda ontem era domingo?” e portanto parece que tudo se compensou. Em termos de trabalho tenho tanta coisa para resolver nestas duas semanas que quando penso nisso só me apetece trazer mais um cobertor para a cama e deixar-me ficar.

E não é por nada, mas desconfio que as duas semanas e meia em Portugal também vão passar a voar. Se bem que aí ao menos ainda há mais umas horinhas de sol. Aqui às quatro e meia da tarde já é noite, o que me faz sentir que o dia todo já passou, e que está tudo perdido, já não dá para trabalhar mais.

Mas há coisas que compensam nesta correria toda. Há perolas lindas nestes dois meses. Sobretudo o contacto com a imaginação e descontracção dos alunos. Eu imagino que também deva ter sido assim. Felizmente não me lembro. Mas ouço às vezes barbaridades tão grandes com certezas tão grande da cara deles, que eu própria me questiono.

A pergunta mais frequente é: “Miss, isto é azul?” (ou verde, ou roxo, ou o que for).

Ó by the way….se precisas de perguntar de que cor é o liquido que tens no frasquinho, ou és terrivelmente idiota, ou es daltonico. Nunca disse isto, no entanto.

Respondo sempre: A mim parece-me amarelo, e tu o que é que achas?”

Não é pedagogico, mas ajuda o tempo a passar. Até ao dia em que eles começaram todos a apontar nos cadernos que a solução azulinha mais clara como o céu que tinham nos frascos era amarela. Pronto, aí deixou de ter graça e foi só assustador.

Nota mental: Não fazer graçolas com alunos do primeiro ano. Nunca Nunca.

Outra:

Um aluno vem ter comigo e diz-me que não sabe utilizar a balança.

Eu sei que eles não têm muita preparação de laboratório no primeiro ano, mas isto é demais.

Eu( a tentar ser engraçada, mas completamente desesperada com a situação): A balança, meu amigo, a balança??? Qual é a dificuldade de usar uma balança??? Colocas o pózinho no prato e apontas o numero que lá indicar… (…daaaaaaaaaah…).

Ele: Mas eu ponho lá o pozinho e nao acontece nada.

Vou ver: não era uma balança, era uma placa de aquecimento. A criatura estava a tentar pesar num fogão. Eu não sabia se havia de rir ou se havia de o recomendar para expulsão por Ofensas-à-Lógica-Mais-Básica.

Mais outra:

Estamos a fazer uma destilação. Num lado está uma mistura que estamos a aquecer e que, se tudo correr bem, vai ter os diferentes componentes a evaporar em momentos diferentes. Para que a ebulição (o “ferver”) seja mais controlada colocamos umas esferazinhas de vidro dentro do balão.

Aparato de destilação

Aluna em histeria vem ter comigo.

“Miss, Miss, a minha experiencia não resultou!!!”

Eu: Ai a gaita, raio dos catraios não acertam uma.

Olho para o aparato de destilação e estava tudo maravilhoso. Pegunto “Mas qual é o problema aqui?”

Resposta, digna do Guiness (olhar de pânico): As esferas de vidro não evaporaram!!!!!!

Penso:AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAARRRRRRG

Pergunto: Sabes qual é a temperatura de fusão do vidro?

…Cara confusa…

Pergunto: sabes qual é a temperatura de ebulição (ferver) da àgua?

….Cara confusa…

Resposta: O que é a temperatura de ebulição…?

Aceitam-se voluntários para o “Pelotão de Espancamento Espiritual e Científico de Alunos Incrivelmente Fora de Série”

Rita