Nós em Londres


Sopa e descanso
Outubro 29, 2006, 2:25 am
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Confesso… hoje foi um dia um bocadinho sózinho para mim.

Tive saudades de toda a gente ao mesmo tempo, e por breves momentos esqueci-me que estou a 1h30 de viagem de vocês. Parecia que estava em exílio no Burkina-Faso. Que deve ser um óptimo sítio para se estar, mas é longe que se farta.

Coisas que tenho saudades hoje (categoria “coisas”, não pessoas) :

– tomar café de manhã na esplanada da Graça;

– ler o Expresso;

– Pão;

-Bitoques;

– Cheiro a castanhas;Comer castanhas; Achar que é uma roubalheira e mesmo assim comprar mais um pacote de castanhas;

– Apanhar o eléctrico e achar que há turistas a mais;

– Beber SuperBock e Sagres: cervejas que têm efectivamente bolhinhas lá dentro;

– Ver o programa dos Gato Fedorento;

Coisas que fiz para tentar compensar:

– Comprei o Times

– Fiz sopa de espinafres

– Comprei uma garrafa de Vinho do porto (marca Sainbury’s, ie, Pingo Doce cá da zona)

– Comprei queijo Boursin+ Batatas fritas (meninos, não tentem isto em casa. Funciona só em casos desesperados – e não falha)

– Fiz batatas doces assadas no forno

– Vi milhentos episódios do “Friends” no computador

Resultado:

Estou fina e pronta para o próximo sábado de manhã.

O vinho do Porto obviamente não é grande espingarda, mas o cálice que bebi lavou-me a alma. Ó pra mim fresca e rabiteza que nem uma alface. Até escrevi no blog e tudo. Estou orgulhosa de mim que me farto.
Mais:

Aprendi que não – repito NÃO – se compram batatas doces a julgar que são “iguaizinhas às portuguesas”. Não são. O interior destas batatas doces é cor de laranja. Tenho medo de as experimentar. Amanhã, quem sabe.

R.



Outubro 27, 2006, 12:33 am
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"... E de novo acredito que nada do que é importante se perde
verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das 
coisas,dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os 
mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os 
dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a 
ilusão de que tudo podia ser meu para sempre." 
Miguel Sousa Tavares


Sunday dinner
Outubro 25, 2006, 1:31 am
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Eu estava preparada para a eventualidade de um ataque terrosrista.

Tinha umas palavritas alinhavadas para a eventualidade de ganhar um Nobel ou do meu miúdo ganhar um Óscar.

Sei o que fazer para evacuar o laboratório no caso de um incêndio.

O que eu não estava preparada é para o facto de os ingleses, saberem, efectivamente cozinhar. Isto, meus amigos, choca-me. Isto, caros compatriotas, é absolutamente inaceitável e devem ser movidas as devidas esferas sociológico-políticas para pôr um definitivo ponto final na situação, antes que seja tarde demais.

Este facto vai forçar-me a mim, e a sabe-se lá mais quantos portugueses, a redefinir o seu conceito de nacionalidade.

Facto português nº1: Só há café decente em Portugal.

Facto português nº2: Só se come bem no nosso país.

Aqui sou forçada a bem da verdade, a contestar.

Hélas, caros amigos, o Facto nº2 é claramente falacioso. Nada mais longe da verdade. Pois o que presenciei e degustei no Domingo (e segunda feira porque ainda sobrou um bocadinho e a malta é poupadinha) é um manjar absolutamente fabuloso.

A Jude e a Jenny – enquanto eu lutava heroicamente com a minha apresentação oral de segunda feira – passaram a tarde toda a cozinhar, e como conforto para as minhas saudades apresentam-me a tradição inglesa mais fabulosa: O Sunday Roast.

Ei-lo, em toda a sua magnificiência:

19out-077.jpg
A coisa foi complementada com uma sobremesa com um conteúdo pouco identificável e francamente calórico, que até me emocionou um bocadinho.

Não é o Bacalhau com Molho Béchamel da minha mãe, nem os rissóis da minha avó, mas soube quase a um jantar de família. Uma família um bocado improvisada, que não fala a minha língua, nem me conhece muito bem, nem sabe muito bem os meus sonhos, nem o meu último nome, mas ainda assim uma família culinária.

A apresentação que tive que preparar para o curso (o tal curso que era obrigatório sobre Presentation Skills) até foi mais fácil de concluir e tudo. Resolvi falar sobre “A cor” do pinto de vista físico-químico, que é uma coisa que às vezes faz um figuraço em festas de família e baptizados.

A apresentação ficou toda catita:

catita.jpg

Ás três da manhã acabei a apresentação. Ás quatro da tarde levantei-me para ser avaliada pelo meu desempenho na apresentação. Alguém guardou a minha apresentação na pen drive no formato adequado (.ppt)?

Eu também não.

Facto português nº3: Os portugueses deixam tudo para a última da hora.

Mostrei a dentola orgulhosamente num sorriso à bifaria que me olhava desconcertada, pedi uns momentos para me concentrar e improvisei uma apresentação sobre Portugal com direito a gráficos desenhados no quadro, História, Evolução Demográfica, Norte/sul, 25 de Abril e José Mourinho. Anos de passar a computador trabalhos de Sociologia da minha mãe e da Ana finalmente tiveram a sua hora de glória.

Fui muito aplaudida e a formadora disse-me que não tinha uma única coisa a apontar-me.

Facto português nº4: O Português improvisa como nenhum outro povo no mundo, coisa a que – geralmente- é francamente um mestre.

Rita



Fins de semana…
Outubro 22, 2006, 2:18 am
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Há uma semana atrás, a esta hora já estava a jantar com o Fazlur, a Andreia e o Milton. [Aliás, a esta hora (quase meia noite) já estava eu a dar uma coça ao Milton na PlayStation , a bem da verdade].

O Fazlur conhece o Mil desde que esfolavam as canelas a jogar à bola no ringue do Pombal, e por isso sentimos-nos logo em casa. Para além disso tivémos direito aos dois braços abertos da Andreia e a uma data de miminhos que só corações grandes sabem dar: começando por um VALENTE pequeno-almoço de Domingo. Ah!…e a uma casa tão limpinha que até fico levemente emocionada só de pensar nisso.

Ó pr’a eles tão lindos:

Fazlur&Andreia

O melhor conselho que tive desde que aqui cheguei, veio da Andreia:

“Quando eu estava no Feijó conhecia as ruas todas, as pessoas todas, era a minha casa. Quando aqui cheguei não conhecia ninguém e só sabia ir do meu trabalho directamente para casa e de casa parao trabalho, e tinha medo das coisas novas. Agora que aqui estou há três anos, conheço o bairro e conheço as pessoas todas. Agora fiz daqui o meu Feijó e sinto que esta terra também é minha. Tu vais concerteza fazer o mesmo, é só uma questão de tempo.”

Pensei nisto a semana toda, e fazer de Muswell Hill “o meu Feijó” tornou-se a minha tarefa, o que é óptimo, para alguém que tem tanto tempo sozinha para pensar e para pôr macaquinhos no sótão. Agora ao menos são macaquinhos positivos. É uma selvazinha porreira a que povoou a minha cabeça esta semana.

No entanto, devo referir que há quase 12 milhões de pessoas nesta cidade.  Eu de momento conheço 4 (quatro). Não vai ser uma tarefa fácil. Ou seja:por enquanto não há direito a cervejinha  e tagarelice à sexta feira porque …bom… basicamente não tenho companhia.
Já não me lembrava do que era passar uma sexta feira e sábado em casa há muito tempo.

Não fora a pilha de artigos para ler e a apresentação para fazer até segunda-feira e até me arriscava a dizer que é bastante bom ficar em casa. Está quentinho, há chá, há bolachas, há companhia, há internet…

A Jenny hoje não saiu e decidiu limpar a casa de banho (Yeyyyyyy!!!Vivaaaaa!) e a Jude foi num “date” com um tipo que conheceu o fim de semana passado, o que quer dizer que quando ela chegar vamos rir-nos um bocado, porque ela vem sempre cheia de histórias.
Compra estúpida do dia:Uma pseudo-tosta mista= 6 euros + cara enojada do empregado por eu querer que ele me faça uma sandes tostada com queijo E fiambre ao mesmo tempo.

Melhor compra do dia: PÊRA ROCHA!!!! Encontrei Pêra Rocha de Alcobaça no supermercado!(Não revelo a quantia indecente que paguei pelas pêras porque nao me quero lembrar disso, muito francamente).

Planos para amanhã (à parte de estudar): Fazer sopa. Muita. Ui. Muita Muita. Para compensar a quantidade vergonhosa de batatas fritas que tenho comido desde que os olhos vigilantes do Milton não estão cá….

Rita
Pequeno glossário em jeito de Post-Scriptum:

Date: É a versão inglesa do “vamos tomar um cafézinho qualquer dia?” português. Claro que , sendo inglesa, mete mais cerveja à mistura.



…socorro…
Outubro 20, 2006, 3:01 pm
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O meu co-supervisor acabou de sair daqui, depois de uma pequena conversa sobre o projecto. Basicamente……..não percebi uma única vírgula.

Pelo menos consegui disfarçar.

É oficial: não vou ter fim-de-semana.

Rita



Foot in the argolation
Outubro 20, 2006, 12:30 pm
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Desde que cheguei já tive cursos de tudo e mais alguma coisa. Assuntos mesmo importantes como por exemplo “como usar a biblioteca”. Porque é muito difícil usar uma biblioteca. Quer dizer, um aluno de outro país – naqueles em que não há livros e as aulas se dão com sinais de fumo – pode olhar para a uma estante cheia de livros e dizer: “Olha que bela cantina. Vou já pedir uma sandes de atum”. Ou pode achar que os computadores são versões modernas dos aquários e atirar migalhinhas de pão lá para dentro.Nunca se sabe.
No outro dia fui a um curso chamado “começar o PhD”, onde me explicaram coisas fantásticas como: “tens três anos e meio para acabar a tese”; “o objectivo do PhD é entregar uma tese” e “o diálogo entre o supervisor e o aluno é muito importante”. A SÈRIO???? Bem…Ainda bem que me dizem isso. Sinto-me muito mais esclarecida.

Eu devo confessar que até sou um bocado fanática por cursos. Quando não tinha trabalho inscrevi-me em todos os cursos grátis que a cidade de Lisboa tinha para oferecer, e quando estava a trabalhar cometi a proeza de me enfiar até às 11 da noite num cafofo no Largo Camões depois de um dia de trabalho para aprender em “Higiene&Segurança no Trabalho” que os produtos químicos são perigosos. Que era coisa que já suspeitava, curiosamente.

Mas apesar de gostar tanto destas mariquices, e de achar sempre que vai ser importantíssimo, comecei a ficar com um bocado de azia quando percebi a quantidade de cursos que tinha fazer -alguns fora do horário de expediente. Então, muito naturalmente, porque sou uma miúda pro-activa e esperta que nem uma porta blindada, respondi à Chefa do Gabinete de Desenvolvimento Pessoal que “obrigadinha mas não quero ir a esse curso que vai haver na segunda feira, porque tenho mais que fazer”. Eu não sabia que ela era a Chefa. Ela tem ar de estágiária, lamento imenso. Não lhe ter perguntado como é que ela conseguiu entrar na area reservada a PhD já foi uma sorte. Havia Lobitos com um ar mais adulto quando eu era escuteira.

Mais do que isso: Eu não sabia que era obrigatório ir a isto. Imaginem dizerem ao vosso chefe: “Não obrigada, mas realmente não me apetece muito escrever esse relatório/tirar fotocópias/ensaiar mais uma vez – tenho mais que fazer”. A cara dela adoptou interessantes colorações de tom verde. Foi bonito.
Depois vieram-me dizer o que eu tinha cabado de fazer. Eu fiquei levemente violeta, com um toquezinho de tom”se-tivesse-aqui-um-buraco-esta-gente-nunca-mais-me-via”

Por isso mesmo, por ter sido uma argolada tão grande , toda a gente se riu e percebeu. A minha chefe estava divertidíssima, os colegas de Doutoramento contaram as gafes deles, bebemos imenso chá, não fizemos nada a manhã toda. [que é precisamente o mesmo que eu vou fazer quando for ao bendito curso de “Presentation Skills”- nada]

Um curso sobre “manter a patinha fora da poça” (Maintain the little foot out of the little pond of mud) seria , indubitavelmente, a minha maior skill adquirida.
Há mais Voluntários? Ou têem mais que fazer?

Rita



Milton in TugaLand
Outubro 19, 2006, 10:56 am
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Eu sabia que não ia durar para sempre. Sabia que um dia destes ele tinha que voltar para Portugal para trabalhar. E que depois disso só voltaria definitivamente em Abril de 2007.

Enquanto ele não foi, Abril de 2007 parecia já ali ao lado. Nada de especial.
Ontem, enquanto via os caracóis do Milton a escaparem pelo túnel do metro em direcção a Gatwick, lembrei-me que Abril é daqui a 6 MESEEEEEEEEEES!

Novembro -Dezembro-Janeiro-Fevereiro-Março-Abril. Repeti a cantilena umas quantas vezes à espera que, quem sabe, um mês caísse pelo caminho. Não caiu. Yep. Seis meses….Não cinco, não quatro, não sete….seis….123456….[agora até dizia um palavrão, mas a minha mãe também lê este blog].

Felizmente tenho três toneladas de literatura científica para ler até ao fim do mês, juntamente com umas belas horas de bricolage (para ver se consigo tornar o meu cubículo habitável) e com vários dias de limpeza de fundo (com luvas e máscara e tudo).

Aliás, a limpeza é capaz de me demorar os seis meses interinhos. E porquê?

Porque um interruptor em minha casa parece-se com isto:

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Rita